Venezuelanos ganham força e cargos-chave no PCC em Roraima após ‘batismo’ feito por liderança nacional

Segundo denúncia do Ministério Público, ao menos 740 venezuelanos integram a facção no Estado. PCC teria articulado aliança com o grupo criminoso Trem de Arágua, da Venezuela

A ficha cadastral de Argenis Rafael Barrios Lopez no PCC.
A ficha cadastral de Argenis Rafael Barrios Lopez no PCC.MP-RR

No bilhete manuscrito com caneta azul sobre uma página rasgada de livro didático consta que Argenis Rafael Barrios Lopez, 30, tem duas faculdades: Puente Ayala e PAMC. Este venezuelano, no entanto, não possui curso superior. Ao menos não em instituições de ensino formal. Puente Ayala é o apelido da prisão José Antonio Anzoátegui, na cidade de Barcelona, em seu país natal, uma das mais violentas da Venezuela. E a PAMC é a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, próximo a Boa Vista, que nos últimos anos foi palco de dois grandes massacres que chocaram o Brasil. Nestes dois cárceres Lopez conseguiu seus diplomas do crime, atraindo os olhares da maior facção da América do Sul, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele é um dos 19 venezuelanos denunciados pelo Ministério Público de Roraima no final de 2020 sob a acusação de integrar o grupo surgido em São Paulo nos anos noventa. A maior parte deles se encontra foragida. Mas o fato que chamou a atenção das autoridades foi que todos eles são membros batizados do PCC, ou seja, são irmãos e não apenas colaboradores. Hermanos venezuelanos com posição de destaque na facção e um padrinho de peso.

O bilhete com a matrícula de Lopez no PCC foi apreendido durante uma operação realizada na PAMC pelas forças da intervenção federal que atua no Estado desde 2018, com o objetivo de tomar o controle dos presídios das mãos da facção após as cenas de barbárie ocorridas na unidade em 2016 e 2017, com saldo de mais de 40 mortos. A cooperação de estrangeiros com o grupo não é novidade —alguns paraguaios e até italianos, por exemplo, tem conexões com o PCC. Mas o batismo dos venezuelanos mostra um estreitamento dos laços entre o crime organizado nos dois países. O depoimento de Cristian Alexis Graterol Cabello, outro venezuelano denunciado, reforça esta tese. Segundo ele, ao menos 740 de seus compatriotas ingressaram nas fileiras da facção em Roraima nos últimos anos. Além disso, o PCC teria feito uma aliança com o grupo criminoso Trem de Arágua, um dos maiores da Venezuela, que se dedica à “extorsão, sequestros, homicídios, roubo de veículos e tráfico de drogas e armas”, segundo o grupo internacional de pesquisa InSight Crime. O país governado por Nicolás Maduro, apesar de não ser um grande produtor de droga, é considerado território livre para o tráfico, inclusive com suspeita da participação de militares nos negócios escusos.

Os venezuelanos batizados não ocupam apenas posições subalternas dentro do organograma do PCC em Roraima. Cabello é um exemplo da confiança depositada neles pelos criminosos brasileiros. Ele sucedeu Michel Mota Magalhães no controle dos pontos de venda de drogas no conjunto residencial Vila Jardim, em Boa Vista, o principal da capital. Documentos apreendidos pela intervenção federal no PAMC também apontam que o denunciado fazia parte da Sintonia das FMs de Estados e Países, departamento do PCC responsável pela coordenação da venda de drogas no varejo, uma posição muito importante dentro da hierarquia do grupo. De acordo com o MP, cabia a ele “administrar, conferir os extratos, dar ordem de pagamento de compra de entorpecentes e armamentos, compra de casa de apoio, pagamento para parentes de presos que estavam nas penitenciárias federais, retirada do dinheiro do Brasil para o Paraguai, conversão do dinheiro em dólar no Paraguai, Panamá, México e Espanha”. Ou seja, Cabello ocupava posição de destaque e atuação internacional para a facção.

Um dos bilhetes apreendidos com os dados de integrante venezuelano do PCC
Um dos bilhetes apreendidos com os dados de integrante venezuelano do PCCMP-RR

Além dele, outros três venezuelanos denunciados ocupavam cargos estratégicos para a organização criminosa: Carlos Geraldo Gonsales Garcia, na Sintonia do Resumo Disciplinar; Michel Joseph Touron na “contenção da tabacaria” (serviço do setor financeiro da facção); e Luis Adrian Mora Quijada no Tribunal do Crime da facção em Roraima, sendo este último responsável por julgar e aplicar a sentenças em nome do PCC. De acordo com o MP, os venezuelanos “ingressaram no Brasil pela fronteira Santa Elena de Uairen/Pacaraima e a maioria deles é oriunda de penitenciárias venezuelanas controladas por facções criminosas, sendo, por isso, suspeitos de integrarem grupos criminosos estrangeiros com os quais a facção brasileira já mantinha contato.”

Padrinho de peso no PCC

O prestígio dos hermanos do PCC é tão grande que parte deles teve como padrinho de batismo na facção Ozélio de Oliveira —todo novo irmão precisa ser indicado por um membro antigo, que fica como responsável pela conduta do novato. Oliveira era um dos principais nomes do grupo criminoso em Roraima e no Brasil, tendo sido responsável, em 1998, pelo sequestro de Wellington Camargo, irmão da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano. Oliveira criou a célula roraimense do PCC quando estava detido em Piraquara, no interior do Paraná. Ele teria sido o responsável pela ordem que levou aos massacres de presos rivais ocorridos na PAMC em 2016 e 2017.

A presença de Oziel na conexão venezuelana do PCC é destacada na denúncia: “A participação de um integrante na cúpula nacional do PCC no batismo de venezuelanos demonstra que a facção criminosa atribui uma importância estratégica ao ingresso desses criminosos, muitos dos quais são oriundos de facções estrangeiras que atuam no país vizinho”, diz o MP. Oliveira foi morto pela polícia em janeiro de 2021 em São José dos Pinhais, próximo a Curitiba. Segundo as autoridades, ele planejava o sequestro de um empresário da região.

Qual é exatamente essa “importância estratégica” dos venezuelanos para o PCC? “É difícil precisar no momento. O que se sabe é que são pessoas que já tinham uma vivência no crime. Acho que o fato deles terem passado por prisões venezuelanas chamou a atenção do PCC. Além disso, a facção tem um interesse constante por armas de fogo de grosso calibre, que podem ser adquiridas com facilidade no país vizinho, que também recebe droga vinda da Colômbia”, afirma Carlos Alberto Melotto, promotor de justiça especializado em crimes de tráfico de drogas, organizações criminosas e lavagem de capitais. Ele foi o autor da denúncia contra os 19 hermanos. Uma possível consequência da aproximação entre PCC e grupos criminosos do país vizinho, segundo Melotto, seria o aumento nas apreensões de fuzis e outras armas pesadas em Roraima no ano passado. “Sabemos que a Venezuela é um país altamente corrupto e com uma fronteira seca praticamente aberta”, lamenta.

Por: Gil Alessi
Fonte: El País

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